Reflexão de Natal

Como uma regra geral e inquebrável, eu nunca dou esmolas, nunca. E quando eu digo esmolas, eu estou abrangendo todo o universo de sub-categorias de esmolas: caixinhas de natal, gorjeta, dinheiro pra caridade, e etecetera, etecetera e etecetera. Eu nunca dou dinheiro pra eles.

Nunca.

Até hoje.

Como é Natal, as pessoas da casta inferior da empresa onde trabalho (popularmente chamados de peões), resolveram fazer a tão tradicional caixinha de Natal, apelando para o espírito misericordioso do grande JC para que nós, seus fiés seguidores, contribuíssemos com uma pequena parcela do nosso dinheiro pra fazer o Natal dos menos favorecidos melhor. Pra eles poderem comprar um Sidra Cereser, e um bonequinho de prástico pras criança, pra fazer o Natal delas melhor. Esse tipo de coisa que parte seu coração.

Isso não partiu meu coração. O motivo deu ter doado foi outro.

Eu nunca dou esmolas, nunca.

Tudo começou com a minha mãe. Ela também nunca dá esmolas, nunca. Um dia ela disse que estava parada num sinal de trânsito, e um aidético pediu por caridade qualquer trocado. Naquela época eu acho que ela ainda era vulnerável a essas merdas, ou então imaginou que negar dinheiro a um aidético pudesse significar sofrer as dores do inferno, já que Deus estaria vendo esse ato de mesquinharia e não hesitaria em mandá-la para os confins da casa do capeta.

Enfim, mamãe abriu o cinzeiro do carro e pegou todas as moedas lá e entregou-as ao aidético. Ela nem olhou quanto tinha, ela simplesmente pegou todos aqueles trocos de gasolina/pedágio/refrigerantes e entregou pro aidético. É nessa parte que a estória fica feia, foi a partir desse dia que minha mãe nunca mais deu esmolas, e eu também nunca dei.

O aidético olhou as moedas e disse “isso não dá pra nada”, e literalmente jogou elas dentro do carro. Minha mãe ficou chocada e envergonhada, ele fechou o vidro e procurou o primeiro buraco pra enfiar a cabeça. Ela disse que tentou o porta-luvas mas não deu.

Essa estória é real, isso aconteceu.

E depois teve outra. Um dia eu estava na Barra da Tijuca, que é tipo o bairro que eu mais desprezo nessa cidade. Eu estava no carro com a minha irmã, ela dirigindo, e um cara bateu na janela vendendo maçãs.

Agora, cara, pessoas que querem maçãs vão à feira ou supermercado. Se você está num sinal de trânsito o que você quer é que o sinal fique verde. Se você não estiver vendendo isso, não me interessa. E isso vale pra todos os mendigos que estiverem lendo isso.

Minha irmã, com o vidro ainda fechado, disse não obrigado. O cara insistiu, pedindo pra dar uma conversada “sem compromisso” (esse cara devia ser vendedor de seguros). Eu disse NÃO com a cabeça e falei obrigado, ninguém quer comprar uma maça e conversar antes sem compromisso. Aí o cara perdeu a linha. Ele começou a dizer que se ele fosse branco nós abriríamos a janela.

Essa estória é real, não tô inventando.

Agora, para todos os outros motoristas em volta, nós além de sermos cruéis torturadores de vendedores ambulantes, nós também somos racistas. Isso foi humilhação. Minha irmã procurou o primeiro buraco pra enfiar a cabeça, mas o porta-luvas já estava ocupada com a minha.

Desde então, eu nunca dou esmolas. Até hoje.

Eu doei dinheiro pra caixinha de fim de ano porque eu queria evitar que alguém pensasse que eu era racista/desumano/pão-duro. Eu morri em um dinheiro pra evitar que as pessoas me olhassem torto. Foi mais um investimento do que um gasto, sério.

Você vai dizer que se eu me importo com que os outros pensam de mim, eu devo ser um babaca. Mas não posso fazer nada, eu me importo com que os outros pensam.

Eu nunca dou gorjetas. Foi tudo por causa do filme Cães de Aluguel do Tarantino, logo no início o Sr. Rosa diz que não dá gorjetas, a não ser que o garçom tenha feito um bom trabalho. Depois desse filme, minha vida mudou.

O Sr. Rosa está certo, se alguém traz a sua pizza na hora, dá boa noite e vai embora, porque você deveria dar gorjeta? Ele só fez o trabalho dele. Agora, se ele me traz a pizza quente, 2 minutos após eu fazer o pedido, me dá boa noite, me deseja um feliz Natal e me traz o refrigerante numa bandeja de prata com taças de cristal, aí sim, esse cara merece gorjeta.

Ninguém ganha nada de graça nesse mundo, não nesse mundo capitalista e eu acho que nem num mundo socialista/comunista.

Eu penso nisso toda noite quando volto pra casa ao parar no sinal.

Sinais de trânsito são foda. Acho que eles respondem por 30% da economia informal do Brasil. Todo mundo que vende alguma coisa na rua, as vende em dois lugares: na calçada, na forma de camelôs, ou nos sinais de trânsito no formato de filhos-da-puta pedintes que invadem a privacidade do seu carro.

Eu acho que hoje o governo não pode acabar com os sinais de trânsito porque as pessoas seriam atropeladas na hora de atravessar e porque a economia nacional sofreria um baque.

Enfim, eu estou toda noite no sinal. A nova modalidade de pedir dinheiro em sinal, pelo menos no meu bairro, consiste em um pivete esfarrapado ficar fazendo acrobacia com bolinhas de tênis.

Agora, eu quero que todos os acrobatas de sinal com bolinhas de tênis que lêem isso me escutem. Eu trabalho de manhã pra ganhar dinheiro, e a noite vou à faculdade pra me formar e ganhar ainda mais dinheiro daqui a cinco anos. Milhares de pessoas fazem isso. É assim que se ganha dinheiro, com esforço.

O que faz vocês pensarem que ficar jogando bolinhas pro ar vai me fazer te dar dinheiro? E outro dia um pivete que estava fazendo uma exibição de bolinhas na frente do meu carro errou todos, isso mesmo TODOS os arremessos. Todas as bolinhas caíram no chão. Nesse mundo capitalista ninguém ganha dinheiro fácil, ainda mais se você nem faz seu trabalho direito. Mas isso não o impediu de vir na janela pedir um dinheiro.

Eu nunca dou esmolas a esses pivetes, nunca. Até a uns meses atrás.

Eu parei no drive-thru do MacDonald’s pra comprar um milkshake e o drive-thru a noite fica cheio de pivetes esfarrapados vendendo bananadas e querendo seu dinheiro.

O que é ruim.

Mas no dia em que eu fui o drive-thru estava cheio de pivetes querendo meu dinheiro, e nem bananadas eles tinham. Nem bolinhas pra fazer acrobacia eles tinham. Eles só queriam meu dinheiro, e não davam nada em troca.

Eu dei o troco do milkshake pra um desses moleques, porque eu achei que se não desse ele iria atear fogo no meu carro. Toma essas moedas. Vá embora. Vá cheirar cola. Tchau.

Mas aí é que vem a parte triste, triste de verdade, sem ironias. O garotinho (parei de chamar ele de pivete pra aumentar a dramaticidade) achou que eu era amigo dele. Ele deveria ficar a noite e madrugada toda ali, com a mão aberta sem ninguém dar moeda alguma, que quando alguém finalmente dá, ele deve achar que eu amo ele.

“Isso aí é filme?”, ele disse olhando pra painel do meu carro, pro rádio. Não, não é filme. Vai embora. Vai cheirar cola. Tchau. “Tem uns carro aí que tem filme”. Eu não respondi, fiquei esperando ele ir embora, ou o meu milkshake chegar. O que acontecesse primeiro. Mas o milkshake demorou, e ele ficou ali do lado, esperando eu conversar com ele. Eu sou o mais novo melhor amigo dele, afinal eu dei umas moedas pro garoto.

Essa é parte triste. Eles moleques tem mãe? Família? Sei lá. O primeiro estranho que dá umas moedas pra ele se transforma no Melhor Amigo Para Todo o Sempre, Friends Forever. Então acho que eles não tem ninguém, a julgar pela carência afetiva.

Após ver essa cena quase meiga, quase bonita, quase poética, eu gostaria de finalizar com uma pergunta. Com um grito de indignação aos governantes, aos homens com promessas de melhorias ao povo:

Governantes, quando será que vocês vão tirar esses filhos-da-puta dos sinais e dos Drive-Thurs da minha cidade pra eu poder viver minha vida tranqüilamente?

Sick Boy não dá esmolas, mas aceita elas sob o nome de “doações ao fundo de literartura doentes.net”

13 Responses to Reflexão de Natal

  1. Anonymous says:

    Vc é um bosta. Comentários assim só podem vir de um Playboy alienado.

  2. Anonymous says:

    Ou não

  3. Luciana Hulk says:

    Tem mais é que queimar essa gentalha mesmo!

  4. ISAIAS DO B says:

    Ô ANÔNIMO, PEGUE ESSES MULEQUES E LEVA ELES PRA DENTRO DA SUA CASA MANÉ

  5. Anonymous says:

    ou não

  6. O cara que mete forte says:

    Playboyzinho de merda. Com o preço desse radio que colocou nesse carro comprado com o dinheiro do papai é possível sustentar uma familia pobre por um ano inteiro. Você precisa receber uma dose de realidade e perceber que nao passa de um ser rídiculo por ficar expondo assim tudo o que possui, sentindo-se melhor que os outros por isso.Bicha alienada de merda

  7. Carlão da Regulagem says:

    é gente como esse anônimo que vota no Lula pra salvar as criancinhas. morra maldito@@@@

  8. Porteiro do condomínio says:

    Filhos da puta separado por hífen? Drive-thurs??Viver minha vida???Além de Playboy essa desgraça ainda é burra.

  9. papaku says:

    e ganha mais que voçeshahauhhaahauahuahauhha

  10. Joca says:

    O porquinho vende seu corpo nos melhores açougues para ter isso. Respect.

  11. Bucephalus says:

    Além de gordo e playboy alienado é analfabeto semi-funcional também >(

  12. Luan says:

    O PLAYBOY PSDB. SÓ PODE SER DO DEM OU PSDB PARA TRAZER ESSES COMENTÁRIOS DE QUEM SE ACHA MELHOR QUE OS OUTROS. TENTE PLANTAR BATATA SEU BABACA

  13. Doente says:

    Se eu plantar batata esses inuteis irão parar de me incomodar nos semaforos?

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