Ai que mêda

Desde o início do ano a Rede Globo se mostrou muito dedicada a exibir como uma pessoa pode acabar sendo massacrada por um buraco gigante assassino no meio da BR-101. Famílias inteiras arruinadas por falhas no asfalto quando o carro do papai, que voltava pra casa no Natal, virou um monte de metal retorcido.

Aí as crianças são obrigadas a voltarem às aulas e dizerem que papai foi engolido pela falta de manutenção do governo.

Esposas vão chorar e chorar, dormir e dormir. Todos os dias depois da morte do marido elas ficam horas sentadas na mesa da cozinha olhando pro vazio. Elas esquecem de lavar as roupas das crianças. As crianças são obrigadas a ir para a escola usando roupas sujas cheias de desodorante por cima. Ocasionalmente, mamãe não suportará toda angústia e engolirá 72 capsulas de fenobarbitais.

Não, nada disso vai acontecer, mas a Globo acha que vai ser assim.

Desde uns anos atrás, a Globo insistia que o papai seria morto por uma bala perdida. Mamãe não cometeria suicídio porque antes de ter a chance ela sofreria um sequestro-relâmpago e morreria no cativeiro de inanição. As crianças não ficariam orfãs porque um carro roubado atropelaria todas elas na volta do colégio. Ou isso ou um dos amiguinhos de sala iria balear eles com a arma do pai.

Toda essa sugestão de que algo terrível estava na eminência de ocorrer, todo esse ambiente de terror suspenso, tudo isso teve um efeito nas pessoas. Elas não perceberam na hora, mas percebem agora quando olham para as garagens de suas casas. Seus carros blindados com 75mm de kevlar que nunca viram um tiro na vida. Eles custaram R$ 80.000,00 para virarem esses tanques, mas agora os donos se perguntam “Porque eu fiz isso?”.

Os dobermanns treinados em Israel para desabilitarem um elemento armado em menos de 5 segundos e capazes de identificar os carros dos donos no escuro: R$ 12.000,00. O sistema fechado de câmeras e o alarme silencioso com detecção de movimentos ligado à polícia: R$ 20.000,00. Os guarda-costas parrudos com certificado da SWAT americana: R$ 5.000,00 por mês. Os microchips instalados no corpo dos seus filhos através do ânus enquanto eles dormiam, e no dia seguinte acharam que tiveram um pesadelo, que eram capazes de detectar eles em todo território nacional e descobrir o cativeiro em que estavam: R$ 2.000,00, mais R$ 500,00 pela instalação e R$ 500,00 de mensalidade.

E nenhum deles nunca viu serviço.

Os guarda-costas, e talvez até os dobermanns, devem se perguntar porque um babaca de classe média gastou tanto dinheiro pra se proteger. Se proteger de quem? Só porque a Globo disse que ia acontecer?

Agora o Jornal Nacional insiste em dizer que ninguém pode se movimentar pelas estradas do Brasil sem capotarem 7 vezes o carro.

Desde sempre tudo tem sido assim. Na religião Deus vai punir os infiéis, os pagãos, os que gozam foram, os que usam camisinha, as que usam pílulas, os que doam orgãos, os que apoiam as pesquisas da célula tronco. Jesus iria voltar no ano 2000 para o apocalipse. Depois seria 2001, porque 2001 é quando o novo milênio começa. Agora dizem que vai ser em 2012 quando o calendário Asteca termina. Sempre essa sensação de que o mundo vai acabar. Sempre a sensção de que uma bala vai atingir sua família.

Na escola os alunos tem medo de repetir de ano. Porque se isso acontecer: 1) você é um fracassado sem futuro, 2) você é burro, 3) os seus pais vão te odiar, 4) você vai se separar da sua turma.

A revista Superinteressante diz que nós poluímos tanto o planeta que agora a mudança de temperatura global é nossa culpa. As neves do Kilimanjaro vão derreter porque você ia trabalhar de carro ao invés de ir de metrô. As geleiras estão derretendo por causa do CFC das latas de spray de desodorante, e quando o nível dos oceanos aumentarem e sua casa ficar debaixo d’água a culpa vai ser sua.

Cada um tem um motivo para infligir o medo. A igreja precisa manter pessoas fiés (ou pagando o dízimo). A Globo precisa que você continue assistindo o Jornal Nacional para se atualizar na arte de sobreviver a um buraco. Os hippies da Superinteressante querem que você pare de jogar pilhas no rio e começe a amar as árvores. A escola quer que você decore toda a matéria, acerte a prova, esqueça tudo, passe de ano e eles fiquem bonitos na hora de prestar contas com o MEC.

O medo é o segundo maior motivador humano, é o fator que faz com que pessoas tomem determinadas atitudes. Que comprem, que vejam, que reciclem, que votem, que vão à igreja.

O medo é tão eficiente que Hitler levou uma nação inteira ao extermínio de judeus por causa dele. O medo levou as pessoas a confiarem no Mussolini. O medo de que um ataque terrorista poderia acontecer a qualquer momento fez com que as pessoas votassem o Bush.

O medo é o segundo maior motivador humano. Para a felicidade de nós, só perde para o desejo. E o maior desejo de todos deve ser o sexual.

Então, pessoas que infligem o medo, me ouçam.

Diretores de escola, me ouçam. Ao invés de ameaçar as crianças repetentes, ofereça sexo. “Meninos e meninas, quem não passar de ano vai ser uma tristeza. Mas não se preocupe, vocês vão continuar vendo seus amigos na hora do recreio, vocês vão ser profissionais competentes, adultos felizes, e seus pais vão te amar do mesmo jeito. Mas quem passar de ano vai ter tudo isso e ainda vai poder trepar de graça”. Aí você vai ver quantas crianças vão repetir (nenhuma).

As igrejas podem espalhar a palavra: “Jesus não vai voltar para nos julgar. Todos vamos para o paraíso. Mas aqueles que fizerem o bem vão para a salinha VIP de São Pedro junto com as modelos contratadas”.

A Globo poderia fazer a mesma coisa. Ela deveria manter aquele suspense no ar… será que sexo vai ser mencionado de alguma forma? Será que o William vai rasgar o paletó e possuir a Fátima ali na bancada do Jornal Nacional? Será que vai aparecer uma matéria sobre uma praia de nudismo sem nenhuma relevância a não ser mostrar corpos desnudos? Será que na previsão do tempo de hoje a Cláudia Bomtempo vai estar com uma blusa larga sem sutiã por baixo e com o ar-condicionado do estúdio no máximo?

As pessoas que dizem existir muito sexo e/ou menções ao sexo na TV e música deveriam ir dar meio hora de cu. Eu prefiro a Kelly Key desafinando sua melodia de duplo sentido-onanística-fálica “Baba, Baba” do que ter nas paradas de sucesso MC Hitler feat. Mussolini in Da Hood.

A nossa geração já sofre com muito medo. Medo de aceitação da sociedade. Medo de cair na mesmisse. Medo do conformismo. Medo de que o futuro deixe de ser um projeto vida pra virar uma ameaça ao seu presente. Medo dos seus pais.

No fim das contas eu acho que tudo vai terminar bem, porque a partir de amanhã, terça-feira, volta à sua TV o espetáculo de desejos reprimidos vindo à tona, o show de fim de noite da sugestão de sexo embaixo do edredon, a sua meia hora diária de bundas perfeitas em biquínis minúsculos. Amanhã volta ao ar o Big Brother, e pelos próximos três meses toda uma geração vai poder ter uma ereção livre de culpa. Woohoo! Vamos todos cantar de felicidade com o Ultraje a Rigor:
Sexo! Como é que eu fico sem sexo!
Eu quero sexo! Me dá sexo!
Sexo! Como é que eu fico sem sexo!
Eu quero sexo! Vem cá sexo!

Voltei prá sala, vou ver o jornal
Quem sabe me deixam ver a situação geral
E é eleição, é inflação, corrupção e como tem ladrão
e assassino e terrorista e a guerra espacial!
Socorro!

Sexo! Como é que eu fico sem sexo!
Eu quero sexo! Senta Sexo! Solta Sexo!

Sick Boy acha que as pessoas devem fazer amor e não guerra. Mesmo esse sendo um slogan piegas da era hippie, ele realmente acha isso

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